Já estão presos na sede da Superintendência da Polícia Civil do Xingu, em Altamira, sudoeste do Pará, Jefferson Gomes Mello, 21 anos, e Thaisson Santos de Souza, 23, autores do roubo e tentativa de homicídio do professor Anizio de Araújo Uchoa Filho, 50 anos, que é homossexual e foi espancado e enterrado vivo à beira de uma estrada nas proximidades de Altamira, no oeste do Pará (a 900 km de Belém).

Acusados do crime
Anizio conseguiu sobreviver e está hospitalizado. A Polícia Civil está tratando caso como roubo com tentativa de homicídio, mas para o movimento gay da região, trata-se de crime homofobia, já que um dos agressores mantinha um relacionamento com a vítima.
O crime foi registrado na noite de quinta-feira passada (16), quando os acusados roubaram o carro, dinheiro, cartões de crédito e objetos de valor da vítima e ainda tentaram matá-la a pauladas em uma área de mata na rodovia Transamazônica.
Desmaiado, o professor foi arrastado e teve o corpo jogado em uma vala e ainda foi encoberto por terra pelos criminosos que, por fim, cobriram o corpo com folhas. A vítima sobreviveu aos espancamentos e conseguiu pedir ajuda na rodovia para chegar até a Polícia Civil, onde pediu ajuda e denunciou o crime. Os criminosos foram presos em menos de 24 horas após o roubo em poder de todos os objetos e dinheiro roubados.
Em depoimento prestado em termo de declarações na sede da Polícia Civil, ambos confessaram o crime. A vítima permanece internada no Hospital Regional de Altamira para atendimento médico. O professor teve fraturas no maxilar e em um dos braços, além de vários ferimentos pelo corpo. Segundo informações apuradas pelo delegado Paulo Mavignier, que estava de plantão na Superintendência da Polícia Civil, os fatos se passaram entre a noite de quinta-feira passada e a madrugada do dia seguinte.
Versão dos acusados
Nos depoimentos, Jefferson relata que estava junto ao comparsa no trapiche de Altamira, onde, segundo ele, surgiu a ideia de irem até a casa do professor. Jefferson conta que os dois foram até o local, onde passaram a conversar com a vítima. Após algum tempo, os dois teriam saído da casa, porém, sob ameaças de Thaisson, teriam retornado à residência de Anizio. No local, Thaisson sacou uma faca e passou a ameaçar a vítima. Logo em seguida, Jefferson agarrou o professor e o imobilizou com um golpe conhecido como “gravata”.
Os dois amordaçaram a vítima, com uma fita engomada, e amarraram as mãos e os pés. Depois, os acusados passaram a saquear a casa, onde pegaram quatro cartões de crédito e de bancos, um computador portátil, um telefone celular, um aparelho mp4 e R$ 1.150 em dinheiro. Em seguida, carregaram a vítima desmaiada até seu carro, modelo Crossfox, onde também colocaram os objetos roubados.
Jefferson dirigiu o carro roubado em direção à Transamazônica até a cidade de Vitória do Xingu. No bairro Bacana, nesse município, Thaisson foi até uma casa, onde trocou de roupa. Em seguida, os dois seguiram no carro até uma agência bancária, onde tentaram sacar dinheiro do cartão do banco, mas não conseguiram liberar o dinheiro porque o caixa eletrônico estava fechado. Assim, Jefferson e Thaisson seguiram no carro pela Transamazônica em direção ao município de Uruará, até uma estrada vicinal de acesso ao município de Brasil Novo.
Enterrado vivo
Nessa estrada, eles retiraram o professor do carro, ainda amordaçado e com as mãos amarradas, e o levaram para dentro de uma mata, onde após cerca de 40 metros de caminhada, Thaisson armou-se com um pedaço de madeira e passou a espancar a vítima na cabeça. Jefferson alega em depoimento que ficou apenas observando o comparsa espancar o professor. Por outro lado, Thaisson acusa Jefferson de ter também participado dos espancamentos.
Após Anizio desmaiar, os dois arrastaram o corpo até uma vala e, depois de encobri-lo com terra, esconderam-no com folhas. Em seguida, fugiram do local no carro em direção a Altamira. Ao recobrar a consciência, a vítima conseguiu uma carona e retornou para a cidade, onde, por volta de 3 horas, denunciou o crime à Polícia Civil. Os presos foram localizados no centro do município na tarde de sexta-feira passada. O delegado Cristiano Nascimento, superintendente regional do Xingu, aguarda a manutenção do flagrante pela Comarca de Altamira para providenciar as transferências dos presos ao Sistema Penitenciário da região.
A Associação da Parada do Orgulho LGBT da Transamazônica e Xingu fará uma manifestação na próxima quinta-feira, em Altamira, em protesto contra o crime. “O rosto dele está irreconhecível por causa das pauladas”, disse Humberto Lexter, presidente da entidade. Ele afirma que o crime foi motivado por homofobia.
Segundo Roryhone Sousa, assessor jurídico da entidade, Mello não queria que ninguém soubesse do relacionamento com Uchôa.
“Eles praticaram o crime movidos por um preconceito de que, por ser homossexual, ele [Uchoa] era mais frágil. Não foi apenas um roubo, mas sim um crime que teve origem no fato de a vítima ser homossexual”, afirmou Sousa.
Fonte: DOL